CURSO
INTELECTUAIS NEGRAS
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Escritas de si, saberes transgressores e práticas educativas de mulheres negras

o ódio que
vocÊ semeia
por Nathália Braga
por Nathália Braga
Dezenas de mãos ansiosas recebem os livros. A capa branca contrasta com as peles negras dos estudantes e da menina que estampa a capa do livro enunciando o título: O ÓDIO QUE VOCÊ SEMEIA. A cada virada de página mergulhamos no espaço que teoricamente é Garden Heights, um ‘gueto’ estadunidense, mas que parece o Complexo da Maré, a Rocinha, Costa Barros ou até a Vila Kennedy, território onde se passou o texto ‘Vivendo no campo minado’,a leitura anterior do curso ‘Intelectuais Negras’.

Angie Thomas, a autora do livro, personifica a hashtag afro do momento: #blackgirlmagic. E que mágica é essa? Além do registro histórico, Angie possibilita a todos nós a leitura de uma narrativa que mais parece um olhar diante do espelho e nos convida à uma reflexão conjunta sobre o genocídio da população negra. Não demorou muito até imaginarmos a figura do rapper brasileiro MV Bill, por exemplo, representando Maverick, o pai da protagonista. Enxergamos a nós e nossos pares em cada uma das personagens.
Starr, a protagonista da história, é uma adolescente negra de 16 anos que vive o que chamamos de ‘não-lugar’, seja na vida acadêmica dentro de uma escola de elite, no trânsito entre a periferia e os bairros privilegiados ou no relacionamento com um menino branco. Com tantos atravessamentos, todos nós nos sentimos como a Starr em alguma medida, sobretudo dentro da UFRJ.
A linha tênue entre ‘agir naturalmente’ em um ambiente onde a maioria das pessoas é branca e reforçar estereótipos nos tensiona. Starr também relata como se sente “renegando a própria comunidade” ao se relacionar com um homem branco, e a partir
daí refletimos sobre episódios onde a pessoa negra se sente deslocada perante à própria comunidade. Para a vizinhança, Starr e seus irmãos estudam em uma “escola de branco”, o que é visto negativamente.
Perder dois amigos de forma violenta e viver o cotidiano da favela são fatos que abalam e definem os pensamentos de Starr, simultaneamente. Porém, a jovem pode contar com um forte núcleo familiar, ao contrário de Khalil, o amigo assassinado. Pensamos em palavras como “unidade”, “segurança”, “base” e “cura” para definir uma família cujo Jesus Negro estampa a parede. Em meio a versos de RAP, menções aos Panteras Negras e a exaltação de outras figuras e episódios formadores de um pensamento positivo e crítico sobre negritude, os pais de Starr educam os filhos.
Entre as cenas marcantes dos primeiros capítulos, destacamos o relato do apoio da avó de Khalil (Sra. Rosalie) à continuidade dos estudos de Lisa, mãe de Starr e a resignificação da figura da Sra. Rosalie usando um lenço enquanto enfrenta o luto pelo neto e sessões de quimioterapia: “um lenço amarrado na cabeça acrescenta à majestade; uma rainha africana, e somos abençoados por estar na presença dela”.
A turma inteira já vivenciou ‘A Conversa’, tão mencionada ao longo do livro. Nós crescemos ouvindo recomendações de nossos parentes sobre como devemos nos comportar em público, sobretudo diante da polícia. Alguns de nós já fomos revistados, outros têm ao menos um ‘Khalil’ em sua história, seja na forma do pai, irmão, tios… Relembramos a abordagem que a mídia faz de casos tão brutais, como o dos jovens de Costa Barros, e encerramos o encontro com uma frase: